quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Abrindo os trabalhos!

Para abrir, conto com o auxílio de Quintana. Já que é para explorar abismos...



Escadas


Desenho "Escadas Enrolantes" - Leonardo Etero
Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas, conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
             o peito
                        estreito
                                  o teto descendo
Descendo descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser,
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo o que dizem, nenhuma acústica...
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
 nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em direção ao teu quarto
E "sabes" que é um fantasma chamejante e fosfóreo
 o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
 o quanto antes!
Naquelas pobres escadas de madeira das casas pobres
– escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada abaixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
          comigo
                     vens descendo
                                             agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...


Mario Quintana, in "Antologia poética".


Um comentário:

  1. Mirna Lúcia Pacheco10 de outubro de 2013 15:51

    Bom saber que os jovens ainda se ocupam e se sensibilizam com o poder das palavras: - que podem descansar, brincar, chorar, distrair, sorrir, lembrar e
    serem organizadas, harmoniosamente, para exprimir o mais profundo do sentimento humano...Parabéns Fernanda, por ser capaz de tanto quanto os poetas!
    Mirna Lúcia Pacheco

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